Novo Mundo Goles

A enóloga que escuta a terra

Noelia Orts, enóloga da Viña Emiliana — considerada a maior vinícola orgânica do mundo —, faz do respeito à natureza não apenas uma filosofia de trabalho, mas uma forma de existir dentro e fora do vinhedo


Postada em 18/05/2026 às 10:54
Por Glaucia Balbachan


Há profissionais que escolhem um caminho. E há aqueles para quem o caminho parece ter existido antes mesmo da escolha. Noelia Orts pertence ao segundo tipo. Formada em Enologia pela Universidade de Valencia, na Espanha, ela não chegou à viticultura orgânica por tendência ou oportunidade de mercado. Chegou por convicção — uma convicção que nasceu nas salas de aula e se consolidou nas vinhas da Catalunha, onde trabalhou na Cavas Recaredo, projeto pioneiro em agricultura orgânica e biodinâmica. Foi lá que aprendeu que cuidar da terra com rigor e delicadeza não era incompatível com a excelência técnica. Era, na verdade, o único caminho que fazia sentido.

 Hoje, Noelia é a enóloga da Viña Emiliana, no Chile — considerada uma das maiores vinícolas orgânicas do mundo, com operações que atravessam vales distintos como Limarí, Colchagua e Maipo. Uma operação de escala rara para uma proposta tão exigente. Mas para ela, a escala nunca foi o problema. "Não é uma dificuldade — é preciso se planejar bem", diz. "O que não existe são produtos milagrosos para maquiar e ter os vinhos prontos em tempo recorde. Às vezes nos esquecemos de que o vinho é um produto natural, vivo, que precisa do seu tempo. E respeitar esse tempo é, para nós, uma forma de respeitar também quem o vai beber."

A filosofia de Noelia não se encerra no orgânico. Ela vai além — até a biodinâmica e, mais recentemente, à viticultura regenerativa. Para ela, essas práticas não são modismos nem certificações a exibir no rótulo. São formas de compreender que a videira não é uma planta isolada à qual simplesmente se pedem cachos. É parte de um todo. "A biodinâmica te faz entender que tudo em um vinhedo está intimamente relacionado", explica. No momento da colheita, ela consulta o calendário biodinâmico — especialmente para os vinhos premium —, buscando dias de lua ascendente ou de constelações de calor para as melhores parcelas. Mas jamais abandona a formação enológica: "Se a uva está no seu ponto ótimo de maturidade, mas o próximo dia perfeito está a sete dias, vou colher assim mesmo. O calendário é uma guia, não uma regra."

Essa tensão entre intuição e rigor técnico é, talvez, o traço mais característico do seu trabalho. Na vinificação dos vinhos premium — como o emblemático Coyam —, Noelia trabalha sem leveduras comerciais, sem enzimas, em uma abordagem que ela descreve como "uma vinificação muito natural, como a que se fazia há 60 anos, porém enriquecida pelo conhecimento científico atual, especialmente em microbiologia e higiene." O resultado são vinhos que carregam a marca do lugar — não a marca do enólogo.

O Chile oferece a Noelia um palco generoso para esse trabalho. A diversidade geográfica do país — comprimida entre os Andes, o Pacífico e a Cordilheira da Costa — cria uma multiplicidade de microclimas e solos que, para uma enóloga atenta, equivale a uma biblioteca de expressões. No Limarí, os solos calcários e a brisa marinha entregam mineralidade e frescor aos Maycas. Em Colchagua e Maipo, os solos mais profundos e a influência continental conferem corpo e caráter ao Cabernet Sauvignon, ao Carménère e às variedades mediterrâneas. "Meu trabalho é exatamente esse: escutar o que cada lugar tem a dizer e traduzi-lo no vinho com a menor intervenção possível. Não impomos um estilo — deixamos que o terroir fale."

Mas escutar a terra, nos dias de hoje, também significa escutar seus sinais de alerta. As mudanças climáticas chegaram ao Chile com força — e Noelia as sente a cada vindima. "Hoje colhemos muito antes do que no passado e as vindimas são cada vez mais compactas", conta. "Antes, tínhamos semanas sem colheita entre um Cabernet Sauvignon e um Carménère — hoje simplesmente não há pausa." No vinhedo, práticas antes corriqueiras foram invertidas: a desfolha, que servia para expor o cacho ao sol, agora busca o oposto — sombreá-lo, protegê-lo do calor excessivo.

É aqui que a agricultura regenerativa praticada pela Emiliana revela sua dimensão mais estratégica. Todos os solos da vinícola são cobertos por diferentes espécies vegetais — trevos, aveia, mostarda, rabanetes —, que retêm a umidade, evitam a erosão e mantêm o solo mais fresco nos meses de verão. "Um solo descoberto pode chegar a ter até 15°C a mais do que um solo coberto", explica Noelia. "E como são as raízes superficiais da videira que enviam os sinais de estresse à planta, ao mantê-las mais frescas, a planta suporta melhor as ondas de calor — preservando assim a identidade e o frescor que são a essência dos nossos vinhos."

Para o mercado brasileiro, Noelia resume a Emiliana com clareza e sem rodeios. Do Adobe, que convida à descoberta varietal sem madeira, ao Ge — o vinho ícone, elaborado com uvas dos vinhedos mais antigos e envelhecido por 16 meses em barricas e cubas ovo de cimento —, há um fio condutor que atravessa toda a linha: "São vinhos honestos, vivos e enraizados na natureza. Vinhos que não tentam impressionar pela força ou pelo peso, mas que te conquistam pela sua autenticidade, frescor e pela capacidade de contar a história de cada lugar. Esse é o estilo Emiliana."

Há algo de raro em Noelia Orts — uma serenidade que não vem da certeza, mas da confiança no processo. A confiança de quem aprendeu, cedo, que as melhores respostas não estão nos manuais nem nos laboratórios. Estão na terra. E que o trabalho do enólogo, no fundo, é ter a humildade de saber escutá-la.

 

Vinhos da Viña Emiliana são encontrados na importadora La Pastina.

Instagram: @lapastina.oficial

Foto: Divulgação