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Don Melchor e DM/01: O ícone e a revelação

Em tarde especial no Gero Itaim, Enrique Tirado apresentou ao Brasil o Don Melchor 2023 e o inédito DM/01 — dois capítulos de uma história que começa no terroir mais nobre do Chile


Postada em 08/06/2026 às 00:23
Por Glaucia Balbachan


Há vinhos que existem para ser bebidos. E há vinhos que existem para ser lembrados. O Don Melchor pertence ao segundo grupo — e numa tarde de rara elegância no Gero Itaim, em São Paulo, Enrique Tirado, CEO e diretor técnico da Viña Don Melchor, conduziu uma masterclass que foi tanto uma aula de enologia quanto uma viagem ao coração de Puente Alto, o terroir que a crítica inglesa Jancis Robinson MW já descreveu como "o Pauillac do Chile".


A história começa em 1883, quando Don Melchor Concha y Toro plantou as primeiras videiras de Bordeaux nos contrafortes dos Andes, no Vale do Maipo. Um século depois, em 1987, nascia a primeira safra do vinho que levaria seu nome — elaborada com uvas de um vinhedo único, a 650 metros de altitude, na margem norte do Rio Maipo, sobre solos de cascalho, areia e argila que drenam com precisão e obrigam a videira a trabalhar pelo que tem. Esse terroir singular, determinado pela combinação de solo, condições climáticas e a delicada intervenção humana, é hoje um marco na história do vinho chileno.


O vinhedo é uma obra à parte. Os 127 hectares divididos em parcelas menores formam o que Tirado chama de "uma composição" — cada bloco com sua própria voz, sua própria personalidade, seu próprio momento de maturidade. É um vinhedo solar, de luz intensa, onde a amplitude térmica entre o dia quente e a noite fria dos Andes preserva a acidez e a identidade aromática das uvas. "O estilo, a complexidade e a finesse do Don Melchor nascem do equilíbrio entre o solo pedregoso de Puente Alto, a brisa andina, o clima excepcional do Alto Maipo, a maturidade das videiras e o trabalho meticuloso no vinhedo", explica Tirado.


A viticultura praticada na propriedade é agroecológica — um compromisso com a saúde do solo, com a biodiversidade do ecossistema e com a longevidade das vinhas que se traduz diretamente no copo. Não por acaso, nem todas as safras resultam em um Don Melchor engarrafado: quando o ano não entrega o que o terroir tem a dizer com plenitude, o vinho simplesmente não nasce. É uma decisão rara no mundo do vinho industrial — e que diz muito sobre a filosofia da casa.

O Don Melchor 2023 — a 37ª safra da história — chega composto por 96% Cabernet Sauvignon, 3% Cabernet Franc e 1% Merlot, envelhecido em barricas de carvalho francês. No nariz, revela uma safra de expressão intensa: cassis maduro, amora negra, grafite e cedro, com camadas de especiarias finas e um toque floral que denuncia a altitude do vinhedo. Na boca, confirma o que o nariz promete — e vai além. Aveludado, poderoso e ao mesmo tempo preciso, tem taninos polidos como seda, acidez viva que sustenta a fruta e um final longo e mineral que ecoa muito depois da última gota. O vinho recebeu 98 pontos no Guia Descorchados 2026 e foi eleito "Melhor Cabernet Sauvignon" pela décima vez e "Melhor Maipo Andes" pela quarta vez consecutiva. Impressionantemente bom.

A surpresa da tarde, porém, ficou por conta do DM/01 2022 — o primeiro lançamento da série "The Parcel", que inaugura um novo capítulo na trajetória da vinícola. Elaborado com uvas de uma única parcela do vinhedo Don Melchor, o DM/01 expressa com precisão a energia, a finesse e o caráter desse bloco específico. Para o Brasil, chegaram apenas 300 caixas — 1.800 garrafas ao todo — tornando-o um dos lançamentos mais limitados e desejados da temporada. No copo, apresenta taninos granulados de textura marcante, acidez equilibrada e sabor de personalidade distinta, com notas de frutas negras, ervas finas, grafite e uma mineralidade que fala diretamente do solo pedregoso de Puente Alto. O DM/01 recebeu 96 pontos no Descorchados 2026 e foi eleito "Vinho Revelação" do guia.


Enrique Tirado conduziu a masterclass com a serenidade de quem passou 27 anos a escutar o mesmo vinhedo — e ainda se surpreende com o que ele tem a dizer. Formado em agronomia pela Pontificia Universidad Católica do Chile e com passagem por Bordeaux, assumiu o Don Melchor em 1997 e desde então não parou de aprofundar o que a palavra terroir pode significar quando levada a sério. "Ao longo dos últimos 27 anos, minha equipe e eu mergulhamos na rica história do Don Melchor — explorando o terroir único do vinhedo e compreendendo cada parcela individualmente."

O Don Melchor já foi eleito o Wine of the Year pela Wine Spectator em 2024 com a safra 2021 — a quarta vez que figura no Top 10 da publicação mais influente do mundo do vinho. Mas naquela tarde no Gero Itaim, entre um gole e outro, os números ficaram em segundo plano. O que ficou foi a certeza de que Puente Alto continua sendo um dos lugares mais importantes no novo mundo para se fazer — e para se beber — vinho.

Serviço: Don Melchor
Instagram: @donmelchorwine
Fotos: Divulgação